NA LINHA DO HORIZONTE, PROCURANDO UM NORTE (para o mundo)

Por Angelo Tomasini
Não sei se sou a pessoa mais indicada para falar desse espetáculo, afinal não sou crítico. Mas se um dia eu quiser ser um, vou ter que escrever. Será que eu sou qualificado para julgar alguém? Por isso que ao invés de ser crítico, prefiro ser admirador, que eu posso na minha santa ignorância. Adorar um erro crucial de coreografia, ou endeusar um espetáculo sem expressão aos olhos dos outros.
Pensar identidade. Essa é a proposta. Não só do primeiro parágrafo, mas do espetáculo inteiro. “Na linha Horizonte...Além do corpo” é o título. Academia de Artes Vania Dutra é a instituição. Valéria Pinheiro é a diretora. A CIDADE É Horizonte, 40km da capital. São 15 bailarinos em cena divididos em 11 atos. Crianças e adolescentes de 8 aos 20 anos de idade.
Resultado de uma pesquisa de mais de um ano, e montagem de três meses, o espetáculo é uma continuação do antigo espetáculo “De Olho D’água a Horizonte”. “No primeiro ano eles discutiram, aprenderam e mostraram o passado de sua cidade. Mas quando chegamos ao final surgiu a necessidade de pensar Horizonte hoje. A cidade industrializada, com tecnologia de ponta, mas que vai religiosamente a missa as 5 da tarde e tem o hábito de ficar na calçada conversando, o que é típico de interior”, explica Valéria Pinheiro.
Através desse paradoxo iniciou-se uma busca do grupo pela identidade. O Resultado é uma montagem caprichada. Um cenário que exibe formas geométricas coloridas em um fundo confeccionado de sobras de fábricas de sapato. Figurino praticamente branco e preto com apliques de formas geométricas coloridas. Detalhe, todos diferentes. Cada um com o seu modelo.
O primeiro dos 11 atos é uma espécie de chamada. Todos os bailarinos em cena dizem o nome e saem para as coreografias. Contemporâneas em um primeiro momento. Às vezes uma vitrine viva, às vezes movimentos infantis. Sempre a repetição, dando uma idéia de que mesmo crianças já sofrem com a ação repetitiva das máquinas. Um projetor de slides exibe imagens de fetos, crianças, pessoas...enfim algo relacionado com a vida, com a cultura. Um grande círculo no fundo do cenário.
Movimentos bem definidos, ensaiados. Uma coreografia que exibe as vezes motivos infantis, outras adolescentes. Desde a bailarina na caixinha de músicas até a marginalidade, com os pixadores, os drogados, enfim, a parte não tão da vida.
Como falar de identidade sem falar dos próprios bailarinos? Daí a pouco vão entrando, de um por um e cada um contando sua história. Em pouco tempo são vozes que partem para a platéia com uma caixa de fotos. Recordações que são mostradas aos expectadores.
Em cerca de dez minutos o grande passo é o de mostrar a identidade através de fotos e fatos que fazem ou fizeram parte da vida de cada um.
Sapateado (considerada uma modalidade clássica de dança) misturado com nuances bem atuais, e até com passos de funk. Os sons simétricos e coreografados dos sapatos dão o tom ao samba e ao rap. Rap também interpretado por uma das bailarinas.Um resumo do espetáculo.
Dinâmico, o espetáculo traz a agilidade da dança contemporânea aliada ao sapateado, ao rap, ao tecno, ao funk e ao samba. Máquinas, sonhos , brinquedos...Enfim, todo tipo de elemento que possa construir ou ajudar não só a encontrar a identidade dos bailarinos de Horizonte, mas também a da platéia que se vê palco, se identifica.



