Fortaleza hoje comemora seus 280 anos. Tempo suficiente para recordar a memória do seu povo, suas tradições, origens, costumes, valores, enfim, a relação da população cearense com o conceito de cultura.
O que realmente consiste ou identifica nossa cultura? Será mesmo que Fortaleza se reconhece culturalmente?
É fácil identificar a essência cultural e suas manifestações em muitas regiões Brasil a fora. São Paulo, por exemplo, se contempla por sua moderna arquitetura com os melhores museus, teatros, restaurantes, shoppings, casas noturnas, entre outros. Sem contar os grandes eventos realizados nesses espaços. O Rio de Janeiro com o Maracanã, considerado o maior estádio do mundo, o carnaval na Sapucaí, evento que mobiliza milhões de pessoas com o contagioso ritmo “Samba-Enredo”.
Já a Região Sul, terra dos gaúchos, além do culto ao Chimarrão, é mantida a tradição entre gerações do cultivo de uvas para fabricação de vinhos. Isso, sem falar das festas folclóricas e das “churrascadas” com a preparação das melhores carnes.
O Boi-Bumbá foi um fenômeno folclórico surgido no Nordeste. Após um processo histórico, migrou para a Região Norte se destacando no Estado do Amazonas com a badalada Festa do Boi na Cidade de Parintins.
Ainda esmiuçando a Região Nordeste, podemos citar o Frevo em Olinda no carnaval conhecido por suas famosas Marchinhas. O Candomblé da Bahia saúda a história dos negros africanos, assim como as danças, comidas, as festas que homenageiam Iemanjá, o Pelourinho, as Baianas... Continuando com a retórica nordestina, nos deparamos com o Reagge Maranhense, que também movimenta milhões de pessoas em seus festivais. Mas, e Fortaleza? Como narrá-la por suas manifestações culturais? Por que não pleiteamos festivais como as outras cidades?
A problemática se abrange a partir do contexto da não percepção da sociedade fortalezense sobre fatores que influenciam no processo do desenvolvimento cultural da cidade.
Onde foi parar o Maracatu, as Oficinas de Artes? Por que nossos Museus não se destacam como os de fora? Por que Fortaleza não disponibiliza mais teatros com estruturas semelhantes ao Teatro José de Alencar e preços mais acessíveis? Por que os órgãos responsáveis de cultura não investem mais no apoio e na divulgação de espetáculos?
O Teatro Universitário é outro exemplo de resistência ao tempo e ao esquecimento.
A festa junina é outro fenômeno que poderia retratar bem a cidade, mas que ultimamente passa despercebida. É um evento folclórico, com danças e comidas típicas, porém, pouco manifestada na região. Antes, muitos bairros se “enfeitavam” e reuniam seus moradores para comemorar o dia de São João. Hoje, poucos fazem isso. Os mais precisos são os da periferia.
E o carnaval da cidade, por que não vinga definitivamente? Ressalto o carnaval que ocorre na Avenida Domingos Olímpio, que ainda sofre o preconceito daqueles que optam por outras localidades. Principais motivos: alegam deficiência de infra-estrutura e problemas com a segurança no local, ou seja, mais uma vez por falta de investimentos.
O Fortal é uma manifestação de iniciativa privada que ocorre no mês de julho. Um evento que mobiliza grande parte da população da cidade, inclusive de algumas regiões no Brasil e no mundo. Um “carnaval” fora de época que retrata mais um produto do turismo da Fortaleza. Mesmo assim, está muito distante do critério de cultura, digo, dentro de nosso contexto histórico-cultural, de nossas raízes. Sua idealização é totalmente influenciada pelo carnaval da Bahia, com trios elétricos e grupos de bandas baianas vindos de lá.
Seria apocalíptico afirmar que o Fortal é um fenômeno cultural da história da população fortalezense.
Em suma, a visão de cultura das pessoas que nascem em Fortaleza, como das que não, se limita no quesito de perspectiva cultural. A prática da pesca, o culto ao jangadeiro, ou, ao cangaceiro, bem como as praias, são exemplos disso. Ao mesmo tempo costumam ser estereotipados pela mídia. É como se a população fosse restrita somente a esses valores, uma vez que seja constatada a abrangência de muitos outros. Uma ideologia que impõe rótulo. Acabamos rotulados pela ignorância da incompreensão, pela alienação de idéias utópicas. Muitas vezes, os noticiários enfatizam isso de forma sutil, sem nem percebermos. Acabam destacando apenas à predominância do clima da região, resumindo, voltam a “estaca-zero” dos assuntos relacionados anteriormente.
Há também quem defenda o Forró como uma dança que representa a cultura de Fortaleza. Baseado em que devemos manter tamanha responsabilidade, se tanto as músicas, como as danças, figurinos das bandas de nossa terra, se inspiram na cultura americana, até mesmo em outras culturas!
Já faz tempo que a essência do forró levantou poeira, perdendo as asas de sua criatividade e originalidade. Antigamente freqüentávamos o forró, aquele que se ía vestido à vontade, ou até mesmo a caráter, com chapéus, botas, camisas quadriculadas. Até as mulheres abraçavam a causa sem se importar com a opinião contrária. O forró que esbanjávamos autenticidade dos compositores da época. Hoje vamos à passarela da moda ao som do forró internacional, sem falar no espetáculo das coreografias que roubam a cena, que mais parecem apresentações de “balé-clássico” misturado com “lambada”.
Contudo, nos resta a pergunta que não quer calar: Ser tradicional é também poder se espelhar em outros?
Nesta análise, o conceito da cultura cearense demonstra um futuro duvidoso sob uma possível identidade cultural. Dos hábitos da população, dos patrimônios históricos, do folclore, do carnaval de rua, não o que é realizado nas regiões litorâneas, por fim, de suas manifestações culturais.
O pensamento provinciano justifica talvez uma ideologia primitiva, perpetuada por preceitos preconceituosos.
Ana Luzia Brito
Jornalismo - Noite