Monday, July 31, 2006

Relato Agonizante

Incompreendido pela ignorância dos homens
Isolou-se de tudo e de todos
Ficou submetido ao chão de um quarto abafado
Perdeu a noção de tempo
Passou horas tentando entender
De fato, o dia parecia não ceder...
O pensamento passava a se desviar
Entre absurdas infâmias
Uma euforia que arrepiava a alma e todos os outros sentidos
Já não conseguia ter a sensibilidade da simplicidade
Das coisas em sua volta...
Apenas uma interminável escuridão
Com o pânico da dúvida que representava então
Aprovação?
Não havia nada que o repreendesse
A ira se encubava gradativamente
Somente ela determinaria uma grande manifestação
Devaneios, ilusão...
Deturpavam quaisquer expectativas de sua vida
Encheu-se de otimismo na ânsia de se libertar
Tentou pela última vez realizar
O ímpeto de sua lucidez a alcançar
Deparou-se com o fracasso, com descaso
Com repugnância ao acaso.

Ana Luzia Brito - 29.05.2005

Íntima Persuasão

Ainda ouço ruídos
Ainda costumo ir naquele lugar
Ainda tenho a mesma visão que um dia te falei
Ainda sinto frio de noite quando vou dormir
Ainda bebo o vinho da saudade
Ainda ignoro
Ainda peço pela Felicidade
Ainda leio sobre a efemeridade das coisas
Ainda tento compreender
Ainda vejo o que ninguém vê
Ainda que eu falasse a língua dos homens
Ainda que eu falasse a língua dos anjos
Ainda que não errasse mais
Ainda que eu não me desculpasse
Ainda que eu me revoltasse
Ainda que eu revolucionasse
Ainda estou a aprender
Ainda que eu omitisse
Ainda já não sei
Ainda me distancio...
Ainda que estivesse aqui
Ainda tudo ainda
Ainda espero por que quero
Ainda dizer que estou aqui
Ainda estou de partida
Ainda uma despedida
Ainda um tchau superficial
Ainda
Ainda um Horizonte...
Ainda um lugar qualquer
Ainda aquela mesma energia
De noite, de dia
Ainda a sintonia de uma mesma mulher

Ana Luzia Brito - Outubro de 2005

Wednesday, July 12, 2006

UM FUTURO DUVIDOSO. Cultura de Fortaleza em Xeque: Uma analogia sobre o processo de reconhecimento cultural da população.

Fortaleza hoje comemora seus 280 anos. Tempo suficiente para recordar a memória do seu povo, suas tradições, origens, costumes, valores, enfim, a relação da população cearense com o conceito de cultura.
O que realmente consiste ou identifica nossa cultura? Será mesmo que Fortaleza se reconhece culturalmente?

É fácil identificar a essência cultural e suas manifestações em muitas regiões Brasil a fora. São Paulo, por exemplo, se contempla por sua moderna arquitetura com os melhores museus, teatros, restaurantes, shoppings, casas noturnas, entre outros. Sem contar os grandes eventos realizados nesses espaços. O Rio de Janeiro com o Maracanã, considerado o maior estádio do mundo, o carnaval na Sapucaí, evento que mobiliza milhões de pessoas com o contagioso ritmo “Samba-Enredo”.

Já a Região Sul, terra dos gaúchos, além do culto ao Chimarrão, é mantida a tradição entre gerações do cultivo de uvas para fabricação de vinhos. Isso, sem falar das festas folclóricas e das “churrascadas” com a preparação das melhores carnes.

O Boi-Bumbá foi um fenômeno folclórico surgido no Nordeste. Após um processo histórico, migrou para a Região Norte se destacando no Estado do Amazonas com a badalada Festa do Boi na Cidade de Parintins.

Ainda esmiuçando a Região Nordeste, podemos citar o Frevo em Olinda no carnaval conhecido por suas famosas Marchinhas. O Candomblé da Bahia saúda a história dos negros africanos, assim como as danças, comidas, as festas que homenageiam Iemanjá, o Pelourinho, as Baianas... Continuando com a retórica nordestina, nos deparamos com o Reagge Maranhense, que também movimenta milhões de pessoas em seus festivais. Mas, e Fortaleza? Como narrá-la por suas manifestações culturais? Por que não pleiteamos festivais como as outras cidades?

A problemática se abrange a partir do contexto da não percepção da sociedade fortalezense sobre fatores que influenciam no processo do desenvolvimento cultural da cidade.

Onde foi parar o Maracatu, as Oficinas de Artes? Por que nossos Museus não se destacam como os de fora? Por que Fortaleza não disponibiliza mais teatros com estruturas semelhantes ao Teatro José de Alencar e preços mais acessíveis? Por que os órgãos responsáveis de cultura não investem mais no apoio e na divulgação de espetáculos?
O Teatro Universitário é outro exemplo de resistência ao tempo e ao esquecimento.

A festa junina é outro fenômeno que poderia retratar bem a cidade, mas que ultimamente passa despercebida. É um evento folclórico, com danças e comidas típicas, porém, pouco manifestada na região. Antes, muitos bairros se “enfeitavam” e reuniam seus moradores para comemorar o dia de São João. Hoje, poucos fazem isso. Os mais precisos são os da periferia.

E o carnaval da cidade, por que não vinga definitivamente? Ressalto o carnaval que ocorre na Avenida Domingos Olímpio, que ainda sofre o preconceito daqueles que optam por outras localidades. Principais motivos: alegam deficiência de infra-estrutura e problemas com a segurança no local, ou seja, mais uma vez por falta de investimentos.

O Fortal é uma manifestação de iniciativa privada que ocorre no mês de julho. Um evento que mobiliza grande parte da população da cidade, inclusive de algumas regiões no Brasil e no mundo. Um “carnaval” fora de época que retrata mais um produto do turismo da Fortaleza. Mesmo assim, está muito distante do critério de cultura, digo, dentro de nosso contexto histórico-cultural, de nossas raízes. Sua idealização é totalmente influenciada pelo carnaval da Bahia, com trios elétricos e grupos de bandas baianas vindos de lá.

Seria apocalíptico afirmar que o Fortal é um fenômeno cultural da história da população fortalezense.

Em suma, a visão de cultura das pessoas que nascem em Fortaleza, como das que não, se limita no quesito de perspectiva cultural. A prática da pesca, o culto ao jangadeiro, ou, ao cangaceiro, bem como as praias, são exemplos disso. Ao mesmo tempo costumam ser estereotipados pela mídia. É como se a população fosse restrita somente a esses valores, uma vez que seja constatada a abrangência de muitos outros. Uma ideologia que impõe rótulo. Acabamos rotulados pela ignorância da incompreensão, pela alienação de idéias utópicas. Muitas vezes, os noticiários enfatizam isso de forma sutil, sem nem percebermos. Acabam destacando apenas à predominância do clima da região, resumindo, voltam a “estaca-zero” dos assuntos relacionados anteriormente.

Há também quem defenda o Forró como uma dança que representa a cultura de Fortaleza. Baseado em que devemos manter tamanha responsabilidade, se tanto as músicas, como as danças, figurinos das bandas de nossa terra, se inspiram na cultura americana, até mesmo em outras culturas!

Já faz tempo que a essência do forró levantou poeira, perdendo as asas de sua criatividade e originalidade. Antigamente freqüentávamos o forró, aquele que se ía vestido à vontade, ou até mesmo a caráter, com chapéus, botas, camisas quadriculadas. Até as mulheres abraçavam a causa sem se importar com a opinião contrária. O forró que esbanjávamos autenticidade dos compositores da época. Hoje vamos à passarela da moda ao som do forró internacional, sem falar no espetáculo das coreografias que roubam a cena, que mais parecem apresentações de “balé-clássico” misturado com “lambada”.

Contudo, nos resta a pergunta que não quer calar: Ser tradicional é também poder se espelhar em outros?

Nesta análise, o conceito da cultura cearense demonstra um futuro duvidoso sob uma possível identidade cultural. Dos hábitos da população, dos patrimônios históricos, do folclore, do carnaval de rua, não o que é realizado nas regiões litorâneas, por fim, de suas manifestações culturais.

O pensamento provinciano justifica talvez uma ideologia primitiva, perpetuada por preceitos preconceituosos.

Ana Luzia Brito
Jornalismo - Noite

OLHA SÓ A ESTRÉIA DA ANINHA!!! Seja bem vinda ao clube.










O Amanhecer de Dona Ana

Dona Ana
Assim é chamada a dona da mais perfeita floricultura da cidade
Porque é lá que se compra flor aprendendo um pouco de cada uma delas
A literatura das flores
Não bastando a comodidade, sua “flora-biblioteca” também oferece a apreciação de bons vinhos
Ah... Dona Ana
Senhora das flores, das rosas, orquídeas, cravos, lírios...
A possuidora de uma adega de vinhos
Porque Dona Ana os cultua
Conhece o rito da bebida cor sangue com aroma de rosas
Porque foi ao Chile estudar na Escola de Vinhos
Passou uns tempos na Europa
Morou anos na Grécia, anos em Milão
E fala de Veneza como se ainda fosse a mesma
Como se soasse Chopin
Dona Ana canta, encanta...
Aprendeu a tocar piano
E agora faz parte de um grupo de cantos líricos
Ao mesmo tempo exala delicadeza brasileira do tipo Elis
E se depara muitas vezes pela braveza Janis
Coincidência ou não, são suas preferidas
Coleciona vinis de Nina Simone e Nat King Cole
Assim é Dona Ana
Avassaladora, contemporânea
Mulher que revoluciona conceitos
Porque escreve artigos de opinião
Quase todos de oposição
Tem aura simplista
Dona Ana anseia a natureza de espírito
A lógica do bom senso
As faculdades mentais
A lucidez da humanidade
Bem como a exorbitância das paixões